Inteira.

Chove mais um dia em São Lourenço. Me perdi na contagem do tempo, mas acho que hoje é sábado. Mais um dia, só eu e o baseado. Hoje, nem os cachorros estão aqui.


Acho que ando pensando muito no impronunciável porque ando vivendo uma falta que ele suprimia muito: a atenção no dia a dia. Tô muito, muito sozinha. Não me sinto vista - óbvio, não tô me expondo ... - por opção, mas também por falta de real opção. Sempre fui assim, 08 ou 80: ou eu me conecto e me mantenho, ou eu não me conecto e não me mantenho. Talvez por isso sempre tenha achado uma loucura isso de ainda ter sentimento / vontade de ex... porra, se eu não tô mais junto, se eu não tô mais conectada, é ponto final e bola pra frente. 


Eu tava me esquecendo da fodona que eu sou. Essa track me lembrou. Do que que eu tava com medo? De entrar de cabeça na minha vida? Na minha imagem, na minha saúde, na administração do meu tempo, dos meus bens, dos meus investimentos, dos meus pensamentos e energia... ele me roubou muito. Ele me roubou tudo - por um tempo. Era eu ou ele. Não se esqueça: era você ou ele.


Queria ter alguém pra dar uma volta hoje. Além de mim, eu sei que tenho a mim. Tenho me amado e me acolhido como nunca. Principalmente depois do quase assassinato do Lucas, da mudança repentina de cidade e do corte de muitos vínculos. Cortei bem o baseado - naquela época, já tô rastejando de novo - e encontrar o inominável (de costas, graças a Deus um vínculo a menos de energia) no dia que eu tava indo caçar cocaína me serviu pra não entrar nessa por aqui. Foi "bom". Tem que aceitar, embora seja uma merda.


Ter a Raimunda em casa faxinando e fazendo almoço me traz uma sensação de lar pra esse ambiente. Talvez seja isso que falta no meu dia a dia: se não pelo afeto - no momento - que seja pela possibilidade de construir essa realidade para mim. O foda é que eu tenho muito afeto pra dar. Ando sentindo falta, que saco, de escutar e ser escutada D<  Um dia inteiro fora de casa, indo fazer coisinhas, estudar, esportes, sei lá, e depois voltando pra um colo quente, ir cozinhar junto, conversar, transar, fumar um baseadão delicioso, daquele que só ele sabe fazer.


Mas eu também romantizava muito. Muito. Esse cara tinha algum entendimento de como imprimir uma imagem dele, uma possibilidade do que ele poderia ser, muito convincentemente mesmo não fazendo nenhum movimento real pra aquilo. Vou dar um exemplo: eu compartilhar um meme onde diz que a demonstração de amor dele era deixar um baseado bolado pra mim quando na realidade ele nunca fez isso, nem quando teve a possibilidade. Lembro bem daquele exemplo no Rio de Janeiro ou quando eu cheguei a primeira vez em São Paulo. Não, eu não poderia esperar ele melhorar de fato porque aquilo era teste e eu não queria ser testada. Eu queria genuidade, assim como eu era genuína.


Assim que eu me sentia com ele: genuína, livre pra ser eu mesma (mesmo ignorando todos os sinais de que estava sendo manipulada e - depois - enganada) - era perigoso seguir sendo assim numa relação em que estava me medindo a todo momento. Medindo o quanto concordava comigo em X assunto (como cocaína, por exemplo), apenas para me manipular a seguir contando tudo sobre aquele assunto. Quando na realidade, eu seguiria dando minha opinião mesmo se ele fosse genuíno sobre o pensamento dele. A realidade é que essa insegurança dele em não bancar quem ele era - suas atitudes, sentimentos, pensamentos, angústias - e sempre manipular a realidade como sendo uma outra do que a realmente vivida por ele me trouxe o sentimento constante de quebrar com a realidade: o que era real então e o que não era? Quem era essa pessoa? Quais eram as ambições e sentimentos que guiavam o coração dela? Porque se ela me falava que era X seu coração e eu descubro que era Y e PIOR, quando eu descubro a pessoa não deixa a máscara cair por nada nessa terra e ainda inverte a culpa / a narrativa, o solo fica MUITO instável, como que não sobra nada, porque nem o que é palpável eu posso reconhecer e saber o que está acontecendo. Porque quando eu vejo coisas que eu vi e me são ditas que não são o que explicitamente são, se até o mais óbvio está sendo mentido e manipulado com tanta força, então tudo pode. A insegurança dele inquebrável quebrou uma relação bonita, um encontro honesto e poderoso pela força e vontade que tinhamos em nos existir nos amando & acompanhando. Nada foi mais forte do que a inflexibilidade cruel dele em sempre estar no topo de algum jogo emocional que só ele sabia as regras.


O que mais falta para eu ter um lar?
Sempre quis um lugar de destaque para comprar minhas lembraças das minhas viagens. Engraçado que isso é o primeiro que vem. Talvez essas sejam lembranças mas também extensões de algo que eu fui nesses lugares, os quais me compõem tanto, afinal (ainda) estou sempre em movimento.


Pausa para eu relembrar como sou fodona. No momento, estou montando um set pra subir no palco com 02 ídolos meus, os quais quando comecei serviram de base constante nas minhas pesquisas e gostos musicais. Hoje, sou fechadona com o breakbeat, ácido e denso & eletro de raiolaser muito pela inflência deles no meu desenrolar e descoberta musical.


Bom, uma coisa mais pesada que a outra, mas estar sem vínculos presentes no momento, no meu dia a dia, tem pesado. Tiro menos pira nas praias aqui, não ando gostando de estar nem só e nem dentro do mar aqui em São Lourenço. Ontem, senti que realmente tinha dado pra mim. Me sinto suja e insegura nas praias aqui, infelizmente :(


O que mais falta para eu ter um lar?
Sempre quis um lugar de destaque para comprar minhas lembraças das minhas viagens. Engraçado que isso é o primeiro que vem. Talvez essas sejam lembranças mas também extensões de algo que eu fui nesses lugares, os quais me compõem tanto, afinal (ainda) estou sempre em movimento.
Pra além disso, acho que um espaço aconchegante seria muito bom também. Cores neutras, claras, espaços amplos. Sofá grande e confortável para mim e meus cachorros, cama baixa de preferência, muito confortável, travesseiros e colchas ótimas, bastante espaço verde, muitas plantas & pedras brancas. Bora procurar um espaço assim.


Apesar de ter saído toda cagada cuspida escarrida de Inhotim, não sei se eu já superei o fato de que não moro mais lá. Me pego olhando pra fora da janela do apartamento no Rio das Ostras e não sinto que tenha axé pra mim aqui. Não como senti em Assis, por exemplo. Não como senti quando cheguei em Inhotim e, de uma certa forma, que sentia quando voltava também. Que dali em frente tudo era uma página em branco que poderia ser moldada, mudada, desenhada, pintada, escrita. O que eu quisesse.


A verdade é que a vida me abriu uma porta onde eu cai em belos bíceps, um abraço quente e carinhoso, mas muito, muito traiçoeiro. Era diferente, mas, de novo, era igual. Era diferente porque era uma personalidade forte, embora não dominante. O malandro dominava bem a arte de se mesclar. De ser agradável. De ser útil, de esta rna hora certa no local certo com a possibilidade certa de resolver seu problema. E tudo da maneira mais sutil possível, como se fosse, até, puramente sorte. Sorte sua.


Depois do ocorrido, eu me atentei a estudar. Magia, principalmente. Venho conhecendo um mundo espiritual que não é o que eu achava que era. Ou melhor, é além do que eu imagivava que era. Para além do mundo de amor e paz o qual eu sentia, abriu-se o lado B do lado espiritual para mim e o que eu vejo - e ouço - e entendo - é muito diferente do que eu imaginava que iria encontrar. Nesse mundo, as sombras são apenas o outro lado natural da luz. Se a luz existe, chega a ser instintivo saber que a sombra então também existe.


Tem nem um arzinho condicionado nesse quarto. Tô de cara. Como que eu vim parar aqui?
Priorizando relações, me diz a voz na minha cabeça. Mas eu precisava suprir a falta dos meus pais de alguma forma.
Já supriu? Já sim, senhora. Hora de suprir minha adultez, correto? 
O que eu quero? Ué, eu já disse.
Uma casa bem bonita pra eu morar.
Um corpo forte e bonito para eu me manter.
Uma mente que degusta assuntos interessantes.
Um círculo de amigos que faça sentido com meus valores.
Uma imagem que condiza com o quão poderosa e elegante eu me sinto.
Acho que ser eu, interamente eu. Basicamente, é isso.


Me sinto num calabouço sem fim.
Agora faz sol, mas para onde eu iria?
A única pessoa que eu conheço aqui está também em crise.
Eu não tenho porquê. Eu não tenho rotina. Eu não tenho razão.
Com ele, sim. Eu rodava em círculos, mas era em torno de algo. Algo tão irrisório e efêmero como uma relação romântica, mas sim, eu fazia parte daquilo. Eu era inclusive ser central daquele centro de energia constante. E eu me fui. Eu cortei aquilo, arranquei, cortei com tudo. Coloquei o ponto final.


Foda é que hoje eu já não me encontro inserida em nada sabe?
Meu grupo de trabalho tá cada um em um canto do país e, honestamente, eu tô cansada da noite. Vocês sabem disso mais do que eu.
E o que antes era meta diária: ir à praia - hoje já não basta. Não sustenta. Aqui é uma cidade que não me compele nem um pouco ir à praia / ao mar. Me sinto suja & insegura como disse.


Inhotim tinha alguns estímulos nesse sentido & eu vou dichavar quais eram para melhor compreensão:
- sempre a possibilidade de conhecer alguém novo / alguém apaixonante ou um novo amigo;
- os encontros serem sempre "casuais" - honestamente, eles podem até serem casuais, mas você sempre tem uma noção ampla de quem vai encontrar em alguns lugares ou situações. A cidade é pequena, não tem nem como fugir dessa realidade muitas vezes mesmo querendo;
- isso dá certa noção de que as relações são "mais leves": as pessoas tendem à serem irresponsáveis pois acabam tendo vínculos muitas vezes intensos e duradouros com as pessoas não por desejo, mas sim por conveniência (afinal, sempre se encontram, estão sempre disponíveis, etc.);
- todo dia é dia. Isso quer dizer que o acesso às drogas e a força de vontade em manter-se puro é muito mais forte.
- impossível escapar de certos enredos: tem pessoas que você conhece durante sua estadia que simplesmente não tem como desconhecer, você sempre vai encontrar e conversar muito com pessoas aleatórias que, numa vivência normal, nunca seriam suas amigas nem pessoas próximas suas;

Já até me perdi se eram prós ou contras da cidade. Real é que é uma cidade única em sua experiência - suas dores & suas delícias. & era todo dia, o dia inteiro, o dia que eu quisesse, no erro. E errando. 

A real é que eu tava já bem cansada dessa superficialidade. E o Luiz veio pra me mostrar que, mais do que banais e drenantes todas aquelas trocas, elas poderiam ser perigosas. E o perigo poderia estar vindo de onde eu menos queria (não ouso colocar a palavra "esperava" aqui): de dentro da minha casa. De alguém que eu confiei; ou melhor, que eu QUIS confiar. De noooooovo esse papo de querer antes de observar. É isso que te fode garota. Fica querendo enredo romântico & bonito com todo mundo que mal conhece, dá exatamente nisso. Não imaginava, né? Ninguém imaginava. Nem ele. Mas foi tudo combinado como rompimento & reestabelecimento da balança energética. Da metade pra frente, você não sabe menina. Deixa com navalha a justiça de navalha. Agora você me conhece e conhece minha força. Agora você sabe o que eu amo, o que eu odeio e para que servem flores amarelas. & agora ele também conhece Seu Miguel. Dizem que matou, mas na verdade ele curou e chegou a hora de vocês saberem disso. A magia dele é forte & a sua também. A alquimia era e seria ainda maior. Ainda mais agora que a confiança vinha da parte dele, mas da sua você nunca poderia ter nele para equeilibrar aquela balança. Ela nunca seria equilibrada, porque ele não era uma pessoa confiável e, ao se confiar em alguém que não é confiável, a balança energética / do karma fica desbalanceada. Lapa, Zé.


Foda é que eu acho que na realidade eu usava essa cidade & todo seu enredo como distração de algo maior. Vamos pensar.


Nenhum comentário